Victoria de Vasconcelos Gomes | Psicóloga Clínica (CRP 11/13777) | Mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) | Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) | Docente do curso de Psicologia da Faculdade CDL
Você já sentiu que o tempo está passando rápido demais?
Que o dia mal começou e já acabou, que a lista de tarefas só cresce e o descanso parece cada vez mais escasso? Essa sensação não é apenas sua — e tampouco é um problema individual de organização. Há explicações sociais e históricas para esse fenômeno que vem se tornando uma das marcas mais evidentes da vida contemporânea.
Tempo: uma construção social
O tempo que conhecemos — dividido em horas, minutos, segundos — é uma invenção humana. Norbert Elias, em Sobre o tempo, nos mostra que a forma como medimos e organizamos o tempo não é natural: é uma construção social, profundamente ligada ao desenvolvimento das sociedades modernas.
Antes da hegemonia dos relógios e calendários, o tempo era guiado pelos ritmos da natureza: o ciclo do dia, as estações do ano, o movimento dos astros. A modernidade transformou essa vivência. O tempo passou a ser cronometrado, quantificado, regulado — e, com isso, tornou-se também uma forma de controle sobre o trabalho e sobre a vida.
Hartmut Rosa, sociólogo alemão, desenvolveu a teoria da aceleração social, segundo a qual vivemos em um mundo em que tudo — absolutamente tudo — está se tornando mais rápido. A técnica, as relações sociais e o próprio ritmo de vida se aceleram continuamente. Rosa observa que “o tempo escasseia na mesma medida em que se acelera o ritmo da vida” (Rosa, 2019, p. 30). Em outras palavras: quanto mais rápido tentamos viver, menos tempo sentimos ter.
A tecnologia, que prometia nos dar mais tempo livre, acabou se tornando um dos motores dessa aceleração. E-mails, aplicativos de mensagens e plataformas de trabalho remoto fazem com que estejamos sempre disponíveis, conectados, prontos para responder — mesmo fora do expediente.
O trabalho como centro da aceleração
Essa lógica acelerada se expressa de forma intensa no mundo do trabalho. Em minha dissertação de mestrado, “Jornada laboral no contexto bancário: efeitos na organização do trabalho em cargos de gestão”, investiguei como gestores do setor bancário vivem o tempo no contexto de metas, pressão e conectividade constante. O que encontrei foi uma sobreposição de temporalidades: o tempo de trabalhar invade o tempo de descansar, o tempo de conviver, o tempo de existir.

A noção de jornada fixa se esvazia diante das exigências por resultados e da cultura da performance. Muitos profissionais relataram que, mesmo após o expediente, seguem pensando em demandas, checando mensagens, resolvendo pendências. O tempo livre já não é, de fato, livre. Essa lógica, além de desgastante, compromete a saúde mental e fragiliza vínculos pessoais.
Essa lógica intensa de aceleração atinge especialmente o mundo do trabalho — espaço no qual tempos sociais se sobrepõem e se esgarçam. Em minha dissertação, investiguei como gestores do setor bancário vivenciam essa invasão temporal: o que deveria ser jornada de descanso transborda para além de limites, atravessando momentos antes dedicados ao convívio, à família e ao autocuidado.
Nesse contexto, vale trazer à tona as reflexões de Cássio Adriano Braz de Aquino sobre ócio, lazer e tempo livre. Segundo Aquino e Martins (2007), a modernidade capitalista transformou o tempo em um recurso funcional e produtivista, no qual o “tempo livre” se tornou um prolongamento do tempo de trabalho, muitas vezes preenchido por atividades organizadas sob a mesma lógica da eficácia. Já o ócio, compreendido em seu sentido clássico, representava uma experiência qualitativa, voltada à criação, à reflexão e ao cultivo de si — uma vivência que resiste à instrumentalização do tempo.
Dessa forma, enquanto o tempo livre pode ser interpretado como mero intervalo entre jornadas, o ócio carrega uma potência ética e política: a de suspender o ciclo acelerado da produção e reivindicar uma relação mais subjetiva, livre e significativa com o tempo. Em um cenário no qual tecnologias e metas se impõem sobre todas as esferas da vida, retomar o ócio como valor social é também um ato de resistência à lógica da urgência.
A urgência como normalidade
Vivemos uma cultura da urgência permanente. Tudo é para ontem. E quem desacelera, muitas vezes, sente culpa. A produtividade se tornou um valor quase moral — e, nesse cenário, pausar é visto como fraqueza. Mas essa urgência não é neutra: ela é produzida, mantida e naturalizada por estruturas sociais e tecnológicas que impõem ritmos desumanos.
Hartmut Rosa alerta que a aceleração rompe a ressonância com o mundo: perdemos a capacidade de nos conectar de maneira significativa com o que fazemos, com os outros e conosco.
Resistir ao tempo que nos atravessa
O tempo não é apenas algo que passa — ele nos atravessa, nos molda, nos exige. Como disse o poeta Paul Valéry: “o tempo não é algo que passa, é algo que nos passa”. Por isso, é fundamental recuperar o poder de escolher como queremos viver o tempo.
Na pesquisa de campo que realizei, encontrei sinais de resistência. Profissionais que silenciam o celular após o expediente. Que reivindicam pausas. Que buscam criar brechas de cuidado no meio da rotina. Esses pequenos gestos apontam para a possibilidade de construir outras temporalidades — mais sustentáveis, mais humanas, mais possíveis.
Repensar o tempo é repensar o modo como queremos viver. E talvez essa seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo!
Referências
AQUINO, Cássio Adriano Braz; MARTINS, José Clerton de Oliveira. Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho. Revista Mal‑Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. 7, n. 2, p. 479–500, set. 2007.
ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
GOMES, Victoria de Vasconcelos. Jornada laboral no contexto bancário: efeitos na organização do trabalho em cargos de gestão. 2024. 106 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2024.
ROSA, Hartmut. Tempos de aceleração: um ensaio sobre a mudança temporal na modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
VALÉRY, Paul. Cahiers. Paris: Gallimard, 1974.