Efeito Rashomon

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Rashomon: um ensaio sobre a realidade

27 de junho de 2024

Allan Shellenk de Abreu Torres – Graduando em Psicologia na Faculdade CDL

Érica Silina de Almeida Meneses – Profa. Dra. dos cursos de Psicologia e Direito da Faculdade CDL

“A arte tem uma função crucial para o sujeito: ela lhe permite lidar com o real de maneira simbólica, transformando a angústia em uma experiência estética.” (Jacques Lacan)

Em 1950 o até então pouco conhecido diretor Akira Kurosawa lançava uma de suas grandes obras: Rashomon. O filme conta a história três homens que se abrigam de um temporal nas ruínas do portão de Rashomon. Estes homens recontam o julgamento de um crime: a morte de um samurai que teve sua esposa violentada por um bandido. Ao decorrer da narrativa, cada homem conta o depoimento de cada envolvido, mas o ponto mais interessante é como a história muda de perspectiva a partir do relato de cada envolvido. A confissão do bandido contradiz o relato da esposa e o relato da esposa contradiz o relato do samurai morto, que tem sua versão narrada por uma médium, mas nenhuma das versões são confirmadas pelo depoimento de uma testemunha que presenciou o crime.

O impacto causado por esse filme deu origem a um conceito chamado “Efeito Rashomon”, que pode ser definido como “uma combinação de diferentes perspectivas sobre um fato com a ausência de evidências que comprovem ou refutem qualquer uma das versões, convergindo para um final inconclusivo”. (Santos; Médola, 2021)

A partir deste conceito podemos nos questionar: existe uma realidade única? Uma verdade absoluta? Fatos puros, imparciais, sem a interferência de quem os analisa?

O “Efeito Rashomon” é descrito nas mais diversas áreas de conhecimento como Biologia, Sociologia, Direito, Física e Psicologia.

Uma das respostas possíveis é o conceito psicanalítico de “Atenção Flutuante”. Em linhas gerais, a “Atenção Flutuante” é o estado em que o analista está atento a tudo que o paciente fala sem dar importância maior ou menor a nada em seu discurso. O analista “flutua” sobre o discurso do analisando sem “mergulhar” na história. Assim é capaz de captar os conteúdos inconscientes sem cair na curiosidade redutiva de “saber da história”. Ou seja, os fatos narrados não são o ponto de ancoragem do analista, pois a mesma história pode ser diferente para diferentes pessoas que a vivenciaram, mas sim o conteúdo inconsciente que emerge da narrativa.

Outra proposta interessante é o “Efeito do Observador” da Física, onde o resultado pode alterar a partir do método de observação de um evento. A título de conhecimento podemos dar como exemplo a luz, que pode comportar como partícula ou onda. A depender do método escolhido para captar a luz, o observador poderá ter o resultado como partícula ou onda.

A Psicologia é a ciência (e porque não a arte) de observar as subjetividades humanas. Ao longo de nossa trajetória de vida construímos verdades absolutas para depois as vemos ruir e no final nos fica a dúvida “por que me prendi tanto a isso?”. Ideias muitas vezes abstratas, mas que desencadeiam ações extremamente concretas em nossas vidas. E quantas ideias, conceitos, regras, preconceitos, crenças limitantes tivemos ao longo de nossa vida? Subjetividade.

O psicanalista Lacan destaca a desconectividade do sujeito na medida em que o diferencia da noção de eu. Valendo-se do imaginário, o autor faz uma leitura do narcisismo – apartada radicalmente de um culto de si – e promove sua entrada na psicanálise e o início de seu ensino marcado por seu estilo e sua brutal diferença em relação às outras propostas de leitura do legado de Freud.

Ao criticar a cultura do narcisismo promovida pela ego-psychology, Lacan afirma que o eu, como imagem, é fonte de engano e ilusão. O autor dedicou muitos anos de seu ensino, durante os quais teceu inúmeras críticas à psicologia do ego, a dar um lugar ao eu diferente daquele que lhe fora atribuído pela corrente norte-americana de psicanálise. Lacan convocou a urgência de um retorno a Freud a fim de restituir o percurso que este iniciara, partindo do desamparo e chegando à pulsão de morte.

Rashomon nos mostra que podemos ser heróis ou vilões, covardes ou bravos, vítimas ou oportunistas mesmo sem ter consciência disso.

Agora te pergunto: que realidade está construindo para você?


Referências

LACAN, (1974-1975, lição de 10 dez. 1974)

LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. (1974-1975.)

RASHOMON. Direção: Akira Kurosawa. Produção: Minoru Jingo. Intérpretes: Toshirô Mifune, Masayuki Mori (I), Maschiko KyôRoteiro. Roteiro: Akira Kurosawa, Shinobu Ashimoto. Japão: Daiei, 1950. 1h 28min

SANTOS, A. A.; MÉDOLA, A. S. L. D. Um olhar semiótico sobre o efeito rashomon. Significação, Revista de Cultura Audiovisual, v. 48, p. 190-211, 30 jan. 2021. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2021.167292